O MAIOR PROBLEMA
DO HOMEM - Krishnamurti
Em nossa última
reunião perguntamos: Qual é a questão essencial, o problema essencial da vida
humana? Não sei se considerasses este ponto, se nele refletisses. Mas, que
pensais vós ser realmente o problema central da vida humana, como está sendo
vivida neste mundo, com suas agitações, seu caos, suas agonias e confusão, com
os entes humanos a tentarem dominar uns aos outros, etc.? Eu gostaria de saber
qual é, para vós, o problema central ou "desafio" único, ao verdes o que se está
passando no mundo - conflitos de toda espécie, conflito estudantil, conflito
político, divisão entre os homens, diferenças ideológicas, por amor das quais
estamos dispostos a matar-nos mutuamente, diferenças religiosas, a engendrarem a
intolerância, brutalidade sob várias formas, etc. Vendo tudo isso acontecer
diante de vossos olhos - vendo-o realmente, e não teoricamente - qual é o
problema central?
Este que vos fala
vai dizer-vos qual é o problema central; tende a bondade deouvir sem concordar,
nem discordar. Examinai, olhai, vede se o que ele diz é verdadeiro ou falso.
Para descobrir o verdadeiro, cada um tem de olhar objetivamente, criticamente, e
também intimamente. Olhar com aquele interesse pessoal que tendes ao
atravessardes uma crise em vossa vida, quando todo o vosso ser está sendo
desafiado. O problema central é a completa e absoluta libertação do homem
primeiro psicológica ou interiormente e, em seguida, exteriormente. Não há
realmente separação entre o "interior" e o "exterior"; mas, para efeito da
clareza, devemos primeiramente compreender a libertação interior. Cumpre-nos
descobrir se há possibilidade de vivermos neste mundo em liberdade psicológica,
sem nos retirarmos "neuroticamente" para um mosteiro ou isolar-nos numa torre
criada por nossa imaginação. Em nossa vida, neste mundo, é este o único
"desafio": a libertação. Se, interiormente, não há liberdade, logo começa o
caos, começam as oposições e indecisões, a falta de clareza, a falta de profundo
discernimento - e, obviamente, tudo isso se manifesta no exterior. Pode-se viver
em liberdade neste mundo - sem pertencer a nenhum partido político, nem
comunista nem capitalista, sem pertencer a nenhuma religião, sem aceitar,nenhuma
autoridade externa? Decerto, é necessário observar as leis do país (manter-se à
direita ou à esquerda da estrada quando se está conduzindo um carro), mas a
decisão de obedecer, de acatar as prescrições, parte da liberdade interior; a
aceitação da exigência exterior, da lei exterior, emana da liberdade interna. -
É este, e nenhum outro, o problema central.
Nós, entes humanos,
não somos livres, levamos uma pesada carga de condicionamento, imposta pela
cultura em que vivemos, pelo ambiente social, pela religião, etc. Assim, visto
que estamos condicionados, somos agressivos. Os sociólogos, os antropólogos e os
economistas explicam essa agressividade. Há duas teorias: ou herdamos essa
agressividade do animal, ou a sociedade, que cada ente humano construiu,
impele-nos, força-nos a ser agressivos. Mas, o fato é mais relevante do que a
teoria: não importa se a agressividade vem do animal ou da sociedade: nós somos
agressivos, somos brutais, incapazes de olhar e examinar imparcialmente as
sugestões, idéias ou pensamentos de outrem. Porque está assim condicionada, a
vida se torna fragmentária. Nossa vida - o viver de cada dia, nossos diários
pensamentos e aspirações, o desejo de aperfeiçoamento pessoal (uma coisa
horrível) - é fragmentária. Esse condicionamento faz de cada um de nós um ente
humano egocêntrico, que luta no interesse de seu "eu", sua família, sua nação,
sua crença. Surgem assim as diferenças ideológicas - vós sois cristão, outro é
muçulmano ou hinduísta. Podeis tolerar-vos reciprocamente, mas, basicamente,
interiormente, há uma profunda divisão, há desprezo, sentimento de
superioridade, etc. Por conseguinte, esse condicionamento não só nos faz
egocêntricos, mas também, nesse próprio egocentrismo, há um processo de
isolamento, de separação, de divisão, que torna absolutamente impossível a
cooperação.
Perguntamos: É
possível sermos livres? Podemos nós, na situação em que nos encontramos,
condicionados, moldados por tantas influências, pela propaganda, pelos livros
que lemos, pelo cinema, o rádio, as revistas - tudo isso a martelar-nos e a
moldar-nos a mente - podemos nós viver, neste mundo, completamente livres, não
só conscientemente, mas nas raízes mesmas de nosso ser? É este - assim me parece
o desafio, o problema único. Porque, se não somos livres, não há amor: há ciúme,
ansiedade, medo, domínio, cultivo do prazer - sexual ou outro. Se não somos
livres, não podemos ver claramente e não há sensibilidade à beleza. Isto não são
simples argumentos em prol da "teoria" de que o homem deve ser livre; uma tal
teoria se torna, por sua vez, uma ideologia, e esta, a seu turno, separa as
pessoas. Assim, se, para vós, é este o problema central, o desafio máximo da
vida, não há então nenhuma questão de serdes felizes ou infelizes (isso se torna
uma coisa secundária), de poderdes ou não conviver em paz com outros, ou de
serem vossas crenças e opiniões mais importantes que as de outrem. Tudo isso são
problemas secundários, que serão resolvidos se o problema central for plena e
profundamente compreendido e solucionado. Se, observando os fatos reais que vos
cercam e os fatos reais existentes dentro de vós mesmos, sentis realmente que é
este o desafio único da vida; se percebeis que a dependência das idéias,
opiniões e juízos de outrem, a veneração da opinião pública, dos heróis, dos
exemplos, geram a fragmentação e a desordem; se vedes claramente todo o mapa da
existência humana, com suas nacionalidades e guerras, a separação entre seus
deuses, sacerdotes e ideologias, o conflito, a angústia, o sofrimento; se vós
mesmos vedes tudo isso, não como coisa ensinada por outrem, nem como idéia ou
aspiração - surge então um estado de completa liberdade interior, não há medo da
morte, e vós e o orador estais em comunhão, em comunicação um com o
outro.
Mas se, para vós,
não é este o principal interesse, o principal desafio e perguntais se é possível
a um ente humano achar Deus, a Verdade, o Amor, etc. - então não sois livre e,
nesse estado, como podeis achar alguma coisa? Como podeis explorar, viajar, com
toda essa carga, todo esse medo que acumulastes através de sucessivas gerações?
É este o único problema: É possível aos entes humanos serem realmente
livres?
Direis, talvez, que
não podemos livrar-nos da dor física. A maioria de nós padecemos dores físicas
desta ou daquela espécie e, se sois realmente livres, sabereis o que fazer em
relação a elas. Mas, se sentis medo, então, porque não sois livre, a doença se
tornará uma coisa sobremodo opressiva. Assim, se puderdes ver isso claramente,
junto com o orador (sem que este vos tenha inculcado tal idéia, vos tenha
influenciado, falando-vos com tanta ênfase que, consciente ou inconscientemente,
a aceitais), haverá, então, entre nós, comunicação e poderemos descobrir
juntos alguma possibilidade de nos
tomarmos completa e totalmente livres. Podemos partir dessa base? Se começarmos
a examinar e a compreender o problema, então, sua enorme complexidade, sua
natureza e caráter se nos tornarão mais claros. Mas, se dizeis que isso é
"impossível" ou "possível", parastes de investigar, de penetrar no problema. Se
me permitis sugeri-lo, não digais a vós mesmos "é possível" ou "não é possível".
Certos intelectuais dizem: "Isso não é possível; portanto, tratemos de
condicionar melhor a nossa mente, dando-lhe uma lavagem em regra, para depois
fazê-la submeter-se, obedecer, seguir, aceitar, tanto externamente, no plano
tecnológico, como interiormente: seguir a autoridade do Estado, do guru, do
sacerdote, do ideal, etc. E, se dizeis "é possível", trata-se nesse caso de uma
mera idéia, e não de um fato. Em geral, vivemos num mundo vago, irreal,
ideológico. O homem que está disposto a examinar profundamente esta questão,
deve ser livre para olhar, ser livre para não dizer "é possível" ou "não é
possível". Assim, para examinarmos a questão, sejamos livres no começo; a liberdade não vem no
fim.
A questão é esta: se
é possível a um ente humano, a um indivíduo que vive neste mundo, numa sociedade
tão complexa, tendo de trabalhar, manter casa, filhos, etc., tendo relações
íntimas - ser livre. É possível viverem um homem e uma mulher numa relação em
que exista liberdade completa, não haja domínio, nem ciúme, nem obediência - por
conseguinte, numa relação em que haja amor? É
possível?
Como se pode ver
alguma coisa claramente - as árvores e as estrelas, o mundo e a sociedade que o
homem criou e que são vós mesmos - se não há liberdade? Se, abeirando-vos desta
questão, a olhais com uma idéia, uma ideologia, com medo, com esperança, com
ansiedade, "sentimentos de culpa" e as respectivas agonias - é óbvio que não
podeis ver claramente.
Se vedes tão
claramente como o orador a importância de um indivíduo ser completamente livre -
livre do medo, do ciúme, da ansiedade; livre do medo da morte e do medo de não
ser amado do medo da solidão e do medo de não conseguir livre de todos os temores - se é este, para central,
podemos então partir daí. A libertação total é o único problema da existência
humana, pois o homem vem buscando a liberdade desde o começo dos tempos, embora
dizendo "só há liberdade no céu, e não na Terra". Cada grupo, cada comunidade
tem uma diferente ideologia acerca da liberdade. Rejeitando e lançando para o
lado todas as ideologias, perguntamos se, vivendo agora neste mundo, temos
possibilidade de ser livres. Se vós e eu percebemos ser este o único desafio de
nossa vida, podemos então começar a descobrir por nós mesmos de que maneira
irmos ao seu encontro, olhá-lo, entrar em contato com ele. Podemos começar deste
ponto?
Em primeiro lugar,
temos de seguir algum sistema ou método, para alcançarmos a liberdade? Pensai
bem nisso, senhores. Toda gente diz que há um método: fazer "isto", fazer
"aquilo", seguir "este" guru, seguir "este caminho", meditar "desta" maneira -
um sistema, um método de alcançar o alvo gradualmente, passo a passo, um molde a
que devemos adaptar -nos, para, no fim, termos aquela extraordinária liberdade
que todos os sistemas prometem. É esta, pois, a primeira coisa que devemos
investigar, não verbalmente, mas realmente, e, se ela não for verdadeira, nunca
mais, em circunstância alguma, aceitarmos qualquer sistema, método ou
disciplina. Vede, por favor, a importância destas palavras: todo sistema implica a aceitação de uma
autoridade que vos dá o sistema; e
a observância desse sistema exige disciplina, a contínua repetição da mesma
coisa, a repressão de vossas próprias necessidades e reações, a fim de serdes
livre.
Existe alguma
verdade nesta idéia de sistemas? Prestai toda a atenção a isto, tanto interior
como exteriormente. Os comunistas prometem a Utopia, e o guru, o instrutor, o
"salvador" diz: "Faça isto". Vede o que isso implica. Não desejo tornar o
assunto complicado demais, logo de início (pois ele se tornará bem complexo, à
medida que formos prosseguindo), mas, se aceitais um sistema, seja numa escola,
seja na política, seja interiormente, então não há possibilidade de aprender,
não há possibilidade de comunicação direta entre o mestre e o aluno. Mas, quando
não há distância entre o professor e o estudante, ambos estão examinando,
raciocinando juntos e há liberdade para olhar e aprender. Se aceitais um regime
rigoroso imposto por algum infeliz guru (eles estão muito em voga, atualmente,
no mundo inteiro) e seguis esse regime, que está sucedendo realmente? Estais
destruindo a vós mesmos, a fim de alcançardes a liberdade prometida por outro
indivíduo; estais entregando-vos completamente a uma coisa que pode ser
totalmente falsa, totalmente estúpida e irreal. Vejamos, pois, logo no começo,
bem claramente, essa coisa; se a virdes com clareza, a abandonareis
completamente e nunca mais retornareis a ela. Quer dizer, já não pertencereis a
nenhuma nação, a nenhuma ideologia, a nenhuma religião, a nenhum partido
político; tudo isso, são coisas baseadas em fórmulas, ideologias e sistemas que
acenam com promessas. Exteriormente, nenhum sistema poderá ajudar o homem. Pelo
contrário, os sistemas só servirão para separar os homens, como está sempre a
acontecer no mundo. E, interiormente, aceitar outra pessoa como autoridade,
aceitar a autoridade de um sistema é viver no isolamento, na separação e, por
conseguinte, sem nenhuma liberdade.
Assim, como
compreender e alcançar a liberdade - naturalmente, pois ela não é uma coisa que
temos de procurar às cegas, de agarrar ou de cultivar, já que tudo o que se
cultiva é artificial? Se perceberdes ser verídico o que estamos dizendo, os
métodos e sistemas de meditação não terão mais nenhum valor para vós; tereis,
portanto, eliminado um dos principais fatores de condicionamento. Quando se vê
esta verdade que nenhum sistema pode, em tempo algum, ajudar o homem a ser
livre, já se está livre dessa enorme mentira. Pois bem; podeis libertar-vos dos
sistemas - não amanhã, nem daqui a dias, mas agora, na realidade presente? Não
poderemos ir mais longe enquanto cada um de nós não compreender isto, não
abstratamente, como idéia, porém vendo mesmo o fato de que nenhum sistema tem
valor; o caso estará então definitivamente encerrado. Poderemos conversar sobre
este assunto, não com argumentos pró e contra, porém olhando-o realmente,
examinando-o, apreciando-o juntos, como amigos, a fim de descobrirmos a verdade
a seu respeito.
Compreendeis o que
estamos fazendo? Estamos vendo os fatores do condicionamento - vendo-os, sem nada fazermos em relação a
ele. O próprio ver é agir. Se vejo
um abismo, atuo, há ação imediata. Se vejo uma coisa venenosa, não a toco -
a inação é instantânea. Estamos,
pois, vendo este fato que um dos principais fatores do condicionamento é a
aceitação de sistemas, com autoridade e as sutilezas que ele implica? Podemos
conversar sobre isto, ou o orador foi prolixo demais? Espero que
não.
INTERROGANTE: É
muito fácil entender-vos verbalmente; no terreno das idéias, não é muito
difícil...
KRISHNAMURTI: ...Mas
deixar de aceitar a autoridade é coisa bem diferente, não? Que quereis dizer,
senhor, quando afirmais "No plano verbal eu vos entendo claramente"? Significa
isso: "Nós estamos entendendo as palavras que proferis, estamos ouvindo as
palavras?" - e nada mais? Estais ouvindo palavras e, obviamente, podem-se ouvir
palavras completamente sem significação. A questão é: Como escutar as palavras,
de modo que esse próprio escutar seja ao mesmo tempo ação? Diz uma pessoa:
"Intelectualmente compreendo o que estais dizendo - as palavras são claras e o
raciocínio talvez seja mais ou menos válido, mais ou menos lógico, etc. etc.
Compreendo tudo intelectualmente, mas a ação não se verifica, não fico
inteiramente livre da aceitação de sistemas." Ora, como lançar uma ponte sobre
esse intervalo entre o intelecto e a ação? Está claro isso? "Compreendo
intelectualmente, verbalmente, o que dissestes nesta manhã, porém dessa
compreensão não veio liberdade; como fazer esse conceito intelectual tornar-se
ação imediatamente?" Mas, por que razão pensamos compreender intelectualmente?
Por que damos a primazia à compreensão intelectual? Por que se torna esta
predominante? Compreendeis esta pergunta? Estou certo de que todos vós sentis
que, intelectualmente, compreendeis muito bem o que o orador está dizendo;
depois, perguntais a vós mesmos: "Como pôr em ação esta compreensão?" Assim, a
compreensão é uma coisa, e a ação outra coisa, e estais lutando para juntar
essas duas coisas. Mas, intelectualmente, existe alguma compreensão? Não pode
tal asserção ser falsa e constituir uma barreira, um obstáculo? Vede-a bem,
olhai-a, observara atentamente, porque ela pode tornar-se um sistema - o sistema
que todos usam: "intelectualmente compreendo". Esse sistema pode ser
completamente falso. O que quereis dizer é só isto: "Ouço o que estais dizendo;
ouço as vibrações das palavras que me penetram nos ouvidos, e só isto, nada
acontece." Isso é a mesma coisa que um homem ou uma mulher ouvir pronunciar a
palavra "generosidade", sentir vagamente a sua beleza e, entretanto, continuar
com sua avareza, sua falta de liberalidade. Assim, não digais: "Compreendo", não
digais: "Percebi o que dissesses", quando estivesses apenas ouvindo uma série de
palavras. A questão, pois, é: Por que não percebeis a verdade que nenhum sistema
produz liberdade, nem exterior nem interiormente, que nenhum sistema pode
libertar o homem de suas aflições? Por que não vedes instantaneamente esta
verdade? Este é que é o problema, e não como desfazer a separação entre a
compreensão intelectual de uma coisa e pôr em ação essa compreensão. Por que não
percebeis esse fato em toda a sua realidade? Que vos está impedindo de
vê-lo?
INTERROGANTE: Nós
cremos no sistema.
KRISHNAMURTI:
"Cremos no sistema"' Por quê? Eis vosso condicionamento. Vosso condicionamento
está sempre a ditar, a impedir-vos de perceber um dos principais fatos da vida,
o qual condiciona o homem para aceitar o sistema de distinção de classes, o
sistema da guerra e o sistema que promete a paz e, por sua vez, é destruído pelo
nacionalismo - outro sistema! Por que não percebemos essa verdade? É por que
temos algum interesse no sistema? Se víssemos a verdade a seu respeito,
poderíamos perder dinheiro, não conseguir emprego, ver-nos sozinhos num mundo
tão monstruoso e violento. Assim, consciente ou inconscientemente, dizemos:
"Compreendo muito bem o que estais dizendo, mas não podemos pô-lo em
prática."
INTERROGANTE:
Senhor, para estarmos em comunicação convosco ou uns com outros, temos de
achar-nos em movimento, e movimento requer energia. A questão é: Por que às
vezes somos capazes de produzir essa energia, e outras vezes
não?
KRISHNAMURTI: Ao
ouvirmos esta pergunta, por que não vemos a verdade de que os sistemas são
destrutivos, "separativos"? Para vê-la, necessitais de energia, mas não tendes
essa energia para a verdes agora, e não amanhã. Acaso não tendes a energia
necessária para a verdes agora porque sentis medo? Inconscientemente, bem no
fundo, não existirá uma resistência a vê-la, porque isso significa que tendes de
abandonar o vosso guru, abandonar vossa nacionalidade, abandonar vossa ideologia
particular, etc. etc. - e por isso dizeis "compreendo
intelectualmente"?
INTERROGANTE: O
sistema impede-nos de ver essa verdade.
KRISHNAMURTI:
Exatamente. O sistema vos educa, vos estabiliza, vos dá um emprego, e por isso
não o questionais, nem exterior, nem interiormente. Mas não é isso que estamos
perguntando.
Por que razão -
enquanto escutais - não tendes energia para olhar? Para terdes a energia de que
necessitais para olhar, deveis estar atento, aplicar vossa mente e vosso coração
em olhar; por que não o fazeis?
INTERROGANTE: Que se
pode dizer ao homem que tem medo de olhar?
KRISHNAMURTI: Não
podemos forçá-lo a olhar, é óbvio. Não podemos persuadi-lo a olhar. Não podemos
prometer-lhe que, se ele olhar, ganhará alguma coisa. Podemos dizer-lhe: "Você
não precisa olhar o fato - o medo -, mas fique ciente dele." Mas ele pode
responder: "Não quero tornar-me cônscio do medo, não quero tocá-lo, não quero
sequer aproximar-me dele." Não se pode, portanto, prestar-lhe nenhuma ajuda,
porque esse homem está impedindo a si próprio de olhar; pensa que, se olhar,
perderá sua família, seu dinheiro, sua posição, seu emprego, numa palavra, sua
segurança. Mas, vede o que está acontecendo - pois isso é apenas uma idéia: ele
pode não perder a sua segurança. O que está acontecendo é coisa muito diferente:
O pensamento lhe diz "Cuidado, não olhe!" O pensamento gera medo, impedindo-o de
olhar: "Se você olhar, poderá criar uma enorme confusão em sua vida" - como se
ele já não estivesse vivendo em confusão! O pensamento, portanto, gera o medo e
impede o percebimento da verdade de que nenhum sistema, neste mundo de Deus ou
no mundo do guru, do "salvador", do comissário, pode libertar qualquer
pessoa.
INTERROGANTE: Talvez
não possamos perceber realmente o
medo por não o conhecermos.
KRISHNAMURTI: Oh,
muito bem! Se não conheceis o medo, então não há problema nenhum, sois livre;
até as pobres avezínhas têm medo. Aceitar os sistemas como inevitáveis é um dos
maiores obstáculos existentes na mente humana. Esses sistemas foram criados pelo
homem em sua busca de segurança. A busca de segurança por meio de sistemas está
destruindo o indivíduo, o que se torna bem óbvio quando se observa o que se
verifica fora de nos; a mesma coisa sucede em nosso interior. Meu guru e vosso
guru, minha verdade e vossa verdade, meu caminho e vosso caminho, minha família
e vossa família - tudo isso impede o homem de ser livre. A liberdade dará à vida
um significado diverso; o sexo terá diferente significação, haverá paz no mundo,
e não divisão entre os homens. Mas deveis possuir a energia necessária para
olhar; quer dizer, olhar com a mente e o coração e não com olhos cheios de
medo.
Krishnamurti -
Saanen - 9 de julho de 1968.