Veja bem. Começam a mentir para você desde cedo, com aquele papo de Papai Noel. Aproveitam que você ainda não tem noções de física, biologia e até de economia para te enfiar goela abaixo uma história louca sobre um velhinho que vive há centenas de anos viajando num trenó puxado por renas voadoras distribuindo presentes de graça para todas as crianças do mundo. Depois te contam que o Papai Noel não existe. Era brincadeirinha. Aí vem a história da cegonha trazendo bebês para sua mãe barriguda. Depois te contam que cegonha não existe. Aí você vai ao jardim zoológico e dá de cara com uma cegonha. Pronto. É quando você entende que não pode mesmo acreditar em tudo que seus pais lhe falam. Nem nos desmentidos.Na escola a professora diz que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil por acaso. Você tem que acreditar que apesar de um tal tratado de Tordesilhas, uma frota inteira de exímios navegadores portugueses se perdeu e foi parar milhas e milhas longe de seu objetivo. Só levantam dúvidas sobre essa história para você anos mais tarde, na mesma época em que você descobre que aquela baboseira de o verde representar nossas matas; o amarelo, nosso ouro; e o azul, nosso céu era mentirinha também. Então seu cérebro entende que não se deve confiar nos pais, nem nas professoras. De agora em diante você só vai acreditar na mídia. O que aparece para você na tela da TV ou nas fotos deve ser verdade. Eis que surge um grupo musical formado por homens dançando e cantando. Todos são fortes e a maioria usa bigode. Eles representam diversos ícones de masculinidade. Tem um índio, um eletricista, um policial, acho que tinha um motoqueiro também. Não lembro. Mas eram todos homens pra cacete e cantavam que eram "macho men". É ridículo, mas eu, quando criança, fui enganado pelo Village People, aquele conjunto que até hoje, quando tem suas músicas tocadas em boates, fazem a comunidade gay vibrar, como se tivessem vencido uma batalha contra o mundo. Até hoje me sinto aviltado por ter achado que aqueles caras eram machos modelos. Só me consola o fato de eu não ter caído na farsa do George Michael.
Você vai envelhecendo e vai achando que não vai mais ser enganado pela mídia, pois está mais experiente. Que nada. A mídia adora te enganar. Os filmes de maior sucesso são aqueles que te enganam o tempo todo e só revelam que estavam te sacaneando no fim, como O Sexto Sentido, Os Outros, Clube da Luta e outras dezenas de produções espertinhas. E isso não é nada comparado ao Milli Vanilli (lembra disso?) ou à Playboy da Hortência. Ou a Fernando Collor de Mello. Aos 16 tirei o título de eleitor para votar no caçador de marajás. Por pouco não votei no pilantra. Dias antes da eleição tomei conhecimento de umas informações dúbias sobre o sujeito e tive que escolher outro qualquer. Não precisa dizer que o mundo político, melhor dizendo, o mercado político já me desiludiu a ponto de eu votar com um pé atrás até nas mais imaculadas carreiras e nobres propostas. Consegui passar a vida sem acreditar nesse absurdo de Adão e Eva, nesse ridículo de uma arca com um casal de todos os animais para repovoar a Terra e outras histórias consideradas verdadeiras apenas por estarem num livro que as pessoas julgam sagrado. Mas nem por isso deixei de ser enganado por meninas, algumas de 15 anos até. Tive que tirar o chapéu para a esperteza de algumas delas. Até porque se não tirasse, furaria o chapéu com meus chifres. Mas pelo menos estava sendo enganado pelo sexo correto. Podia ter sido pior se na época que eu tinha apenas uns 6 anos de idade tivesse acreditado nos meus colegas mais velhos na aula de judô, que vieram com um papo estranho de que para virar homem eu tinha que dar para eles três vezes. Tem gente que só descobre que é mentira na segunda vez que deu. Graças aos meus instintos masculinos, não precisei nem da primeira vez para achar que essa lei não era nada plausível e dedurei os caras.
Mas a vida continuou e fui sendo passado pra trás por alguns amigos, sendo que alguns ainda carregavam o irônico requinte de ter o sobrenome Leal. Amiguinhos me enganaram pegando minhas namoradas, me roubando em jogos, mentindo sobre outros colegas, etc, etc, etc. Cresci e continuei caindo nas pequenas mentiras de amigos na faculdade, no estágio e no trabalho. E vão continuar tentando me enganar na pracinha dos aposentados, no asilo e na ala dos doentes terminais do hospital. É por isso que não acredito em mais nada. Taí a explicação para os que vêm me perguntar por que minha primeira reação às situações que me apresentam é ser irônico, fazer piadas de tudo e de todos. Encarar tudo com um olhar jocoso. Sacanear esse bando de palhaços que faturam em cima da ignorância geral. Caramba! Se seus pais, seus professores, suas namoradas e seus amigos já te enganaram, como confiar na eficiência do produto do comercial, na boa intenção da apresentadora com câncer, na pureza da cantora-mirim, no talento do ator/modelo, na inteligência do teatrólogo moderninho, na originalidade do VJ, na honestidade da candidata a presidente e na imparcialidade da imprensa? Os próprios jornalistas brincam entre si dizendo que o jornal é como uma fábrica de salsicha. Se o público soubesse como é feito, ninguém comprava.
Não é para você acreditar que o insuportável 1º de abril não tem nada a ver com meu desabafo, mas é verdade. Pensei em tudo isso há duas semanas, na cama. Achei que depois de mais um dia exposto a tantas mentiras, agora teria umas horinhas longe delas, dormindo. Foi aí que pintou a insônia. Assim que eu adormecesse iria entrar em mais um mundo de mentiras, onde meu subconsciente me engana dizendo que eu vôo que nem o Super-Herói Americano (cante comigo: Believe it or not, oh, walking on air), que os mortos estão vivos ou que recebo uma oferta de emprego no qual minha função é controlar uma fila de crianças que vão mergulhar numa piscina. Não há como fugir. Até dormindo você está sendo enganado. Confie em mim. É verdade.
Odisseu Kapyn
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