Quando eu era criança, por volta dos oito anos de idade, praticamente todo dia
descobria algo novo na vida. Uma nova palavra, uma reação que eu nunca havia visto em
uma pessoa, um ritmo musical que nunca havia ouvido, um rosto completamente diferente
dos que eu costumava ver no meu dia-a-dia, uma pedra saltitando no rio quando lançada com força, o formato inusitado da fumaça de uma vela... Uma vez eu vi um inseto esquisito comendo a cabeça de um
gafanhoto, e achei aquilo um verdadeiro espetáculo. Outra vez, peguei um pouco de água de um açude e ao olhar no microscópio da escola vi um bicho que tinha um negócio parecido com um lampião na bundz, de onde saltavam línguas fininhas que o faziam se mover na gosma, e também achei isso um espetáculo.
Enfim, naquela época tudo era novidade, e se eu fosse fazer uma
lista de todas as descobertas que fiz quando tinha oito anos, precisaria de um caderno
com muitas e muitas páginas.
Quando ficamos adultos, já não nos surpreendemos facilmente com o que acontece ao
nosso redor. Nada mais é uma grande novidade. Apareceu um passarinho com duas bundz? Grande coisa...
Levamos uma vida de rotina, saindo de casa pra trabalhar, voltando no final do dia, e um dia é sempre bem parecido com o dia anterior.
Experimente colocar em um papel todas as coisas que você descobriu nos últimos 12
meses. Muito provavelmente, você não conseguirá encher sequer uma página. E com tão
poucas novidades na vida, como você espera poder olhar pra trás e ter a sensação de
que o tempo passou devagar?
Outro fator importante no que diz respeito à sensação de aceleração do tempo é a
intensidade com que vivenciamos as experiências cotidianas. Às vezes eu estou
almoçando e fico espantado com o jeito que as pessoas comem. Elas jogam o rango pra
dentro da boca enquanto discutem o que aconteceu durante a manhã. Caraca! A hora de
comer foi feita pra comer, não pra ficar discutindo problemas. O sujeito enfia o
bife goela abaixo e nem sente o gosto ou a textura da comida. Se bobear, nem sabe o que está comendo. Sua cabeça está pensando no que ele vai dizer pro colega ao lado, ou
no que vai fazer à tarde.
As pessoas estão sempre pensando no amanhã. Esquecem que vivemos no agora, no
presente. Lembra de quando você era criança? Se você ia brincar com seu cachorro,
costumava curtir cada segundo, cada instante com o bichano, e só lembrava do resto do
mundo quando sua mãe dava um grito do tipo "Filho! Sai dessa lama e vai já tomar um
banho!". Hoje, se o sujeito vai brincar com o cachorro, aproveita pra falar com a
esposa sobre o relatório de custos que está preparando para a próxima semana, ou se
preocupa em saber onde deixou o telefone celular, ou fica pensando no que vai fazer
amanhã , e joga o graveto o mais longe possível, pro cachorro demorar a voltar.
Ou seja, conforme o tempo vai passando, nossa busca por dinheiro e sucesso na carreira vai tomando cada vez mais importância em nossas vidas, e acabamos vivendo com menor intensidade várias experiências que, no fundo, são muito mais importantes que carreira e dinheiro. Afinal de contas, nossa vida não se resume a encher o bolso de grana. Vida é interarir, é perceber o ambiente ao redor, é se relacionar com a natureza e com as pessoas, e fazer tudo isso agora e com intensidade. Fico abismado de ver quanta gente há por aí que tem olhar de peixe-bagre, ou de zumbi. O sujeito está conversando com você, mas seu pensamento está bem longe, provavelmente lá em Júpiter, Andrômeda ou
mais longe. É um verdadeiro alienígena! Você vai comprar algo em uma loja, e a pessoa nem olha pra você ao te atender. Alienígenas!
Enfim, se você acha que ultimamente o tempo tem dado uma acelerada tenebrosa, saiba
que o pedal do freio está bem aí, com você. Basta viver mais intensamente, interagir mais, conhecer coisas novas e abrir a mente para novas possibilidades.
Agora, se você gosta de tudo rapidinho, beleza. Provavelmente nem leu este
texto, porque achou que é muito grande. Mas depois não vá reclamar que alguém anda fuçando na máquina de controle do tempo.
Um abraço,
Everton Spolaor