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Paciência!
Everton Spolaor - 29/09/2009

Nessa vida agitada que levamos, sempre com nossa paciência sendo testada porque não temos tempo para nada, muitas vezes acabamos perdendo oportunidades de fazer uma coisa bem legal. Saca só esse exemplo.

Hoje, para terminar o dia de forma diferente, o pneu do meu carro decidiu por conta própria que deveria esvair-se de todo seu conteúdo, e esavaziou-se. Vai ver ele estava de saco cheio de ficar girando por aí, absorvendo os impactos da vida, e então deu uma baita arfada, largando todo o ar dos pulmões, como a gente faz quando tem um chato nos apurrinhando sem parar. Obviamente, ele escolheu fazer isso no dia mais chuvosso dos últimos tempos.

Eu até poderia dar uma de vadio, ficar dentro do carro e chamar o pessoal do seguro pra trocar o borrachudo pra mim, mas como não tenho paciência pra ficar esperando preferi enfrentar a chuva e fazer logo a troca do pneu, pois assim poderia ir logo pra casa e comer um pãozinho com sardinha.



Depois de trocar a roda, fui até uma borracharia para consertar o furo. O borracheiro era um sujeito curioso. Por algum motivo sua aparência fez-me lembrar do Leôncio, aquele personagem das histórias do Pica-pau. Logo fiquei sabendo que ele é conhecido como "Formiga". Isso explica o nome do lugar, borracharia do Formiga. Pois bem, o seu Formiga é um sujeito muito caprichoso, trabalhou sempre tomando cuidado para não arranhar o carro, e falava mais que locutor de futebol de radinho de pilha, contando mil e uma histórias. Depois de consertar o furaco (mistura de furo com buraco) e colocar o estepe de volta no lugar certo, arrumando as ferramentas que eu havia deixado atiradas, por falta de paciência, ele disse:

- Prontinho doutô! Pódi rodá no sussegu.

Diga-me você aí: porque é que tem gente que tem mania de chamar a gente de "doutô"? Pow, o mais perto que eu cheguei de um hospital foi quando era solteiro, em uma época que estava de rolo com uma enfermeira boazuda, mas logo ela não teve mais paciência comigo e me deu mó chutão. Aliás, entre médico e paciente, eu tenho bem mais cara de paciente que de médico, então porque será que o cara não disse " Prontinho paciente! Pódi rodá no sussegu"?

Pois bem, entonces perguntei quanto custava o serviço, e o borracheiro respondeu "cinco pilas".

Pow, fala sério, que barato! Com cinco pilas não dá nem pra tomar um cafezinho no shopping, nem mesmo naquele shopping Brrrheeithffhawulpth de Jaraguá do Sul, e olha que o atendimento do borracheiro foi muito melhor que o daquelas moças mal humoradas que atendem no Bhrreiwthphtwalpth (acho que digitei o nome errado, talvez o certo seja Bherreightphalauwgt ou qualquer coisa assim).

Na hora, como eu ainda tinha que dirigir até Blumenau e já estava com a paciência atropelada, saquei os cinco pilas e paguei pelo bom serviço que ele prestou. Mas enquanto dirigia, uma voz na minha consciência começou a atazanar minha paciência, me dizendo algo assim:

- Pow, o cara te atendeu super bem e tu deu só cinco pilas de pagamento? Não dá nem pra tomar um café no Blreighthwoulthaupth com isso... Que mão de vaca, meu!

Tenho certeza de que se ao invés de 5 pilas eu tivesse dado 10 pilas, o cara teria se alegrado bastante e a velhinha esposa dele também, que estava ali quieta ao lado olhando a novelinha da tarde. Não pelo valor pago (afinal de contas, 5 ou 10 pilas não dá pra muita coisa mesmo), mas pelo reconhecimento pelo bom serviço prestado.

Muitas vezes reclamamos que nosso trabalho não está tendo o devido reconhecimento, o devido merecimento. Mas nós reconhecemos o trabalho alheio?

Um abraço,

Everton Spolaor



Comentários dos visitantes

De: João Alfredo
Outubro/ 2009

Diga-me você aí: porque é que tem gente que tem mania de chamar a gente de "doutô"?

Isso vem da escravidão. É uma forma de agradar o senhor de engenho da atualidade, o que detém o poder ($$$)
Uma forma de ficar submisso e assim receber um agrado, como um cachorro que pede um afago Palavras cruéis. Mas, reais porque será que o cara não disse " Prontinho paciente! Pódi rodá no sussegu"?
Ele não se acha superior e sim serviçal.

Procuro sempre reconhecer. Da mesma forma que espero ser reconhecido É respeitar para ser respeitado.
Mas, na boa. Ando meio sem saco com o ser humano... gosto mais de ficar com a minha cachorra.

De: Elaine
Outubro/ 2009

"Muitas vezes reclamamos que nosso trabalho não está tendo o devido reconhecimento, o devido merecimento. Mas nós reconhecemos o trabalho alheio? Diga você. Reconheces os trabalhos alheios? "

hummmmmmmmmmmmmmmm
Pelo menos prá mim (que nestes tempos ando fazendo bastante trabalho em grupo), a máxima "elogie e será elogiado" tem funcionado.
O que vejo e gosto, eu falo.
O que posso animar, eu motivo.
E tenho encontrado reciprocidade.
Mas não me causou surpresa, que o "mecânico" atendesse melhor do que no shopping. Apesar da mídia apregoar o oposto, o fato é que vivendo de forma mais simples, encontra-se mais razões prá ser feliz (ou alegre).
Em outras palavras: quem trabalha "no shopping", está sob pressão e críticas todo o tempo. Há um padrão de qualidade exigente a ser seguido. Há clientes muito ranzinzas a serem atendidos. Há fiscais da prefeitura, da saúde pública, do próprio shopping. E assim, o patrão também coloca mais fiscais... Muita cobrança, imensa exigência, e o constante risco da reprimenda e da sanção... É a ditatura do "melhor"...

Já o mecânico... bem menos.
A vida é mais simples, as exigências são menores. Sobra tempo prá ouvir causos, já que, na vidinha mais simples que ele tem, não há trintaeduas pessoas procurando os erros que ele "poderia" fazer ao executar seu trabalho.

De: Rogério
Outubro/ 2009

Primeiro Everton, parabéns, vc é campeão na criação de um tópico.. depois volto pra responder.
Muitas vezes reclamamos que nosso trabalho não está tendo o devido reconhecimento, o devido merecimento. Mas nós reconhecemos o trabalho alheio?
Diga você. Reconheces os trabalhos alheios?
Saca a lei da mais valia? Acho que nesse aspecto é que ela pega mais. Somos, por essencia, discriminatórios em relação a serviços, digamos, braçais, aqueles que são feitos por pessoas menos privilegiadas de inteligencia, sei lá.
Mas todo trabalho tem seu valor e sua função. quando desempenhado com competencia, determina o tanto que aquela pessoa é capaz de ser educada, mesmo não tendo berço, eficiente, mesmo não sendo bacharel, coerente, mesmo não andando de carro zero e, acima de tudo, ser humano digno e respeitável.
Reconheço sim. Sei o quanto vale tanto um borracheiro, quanto um médico. Cada um no seu cada um exercem papéis fundamentais no meu dia a dia.

De: Francisco
Outubro/ 2009

Gostei do texto e da pergunta.
Diga você. Reconheces os trabalhos alheios?
sempre procuro reconhecer, afinal a maioria das pessoas q fazem parte do meu dia- a- dia são das classes menos favorecidas.
uma coisa é fato,aqui só querem valorização para medicos professores e outros concursados.

De: Nana
Outubro/2009

Eu reconheço sim o trabalho alheio. Sou do tipo que se sou bem atendida e tenho uma grana extra a deixo de gorjeta. Se não, ao menos digo um muito obrigada e me mostro satisfeita com o serviço.

De: MLLAGO
Outubro/2009

Caramba amigão, muito legal!
Não só reconheço o trabalho alheio como elogio sempre.
Todo esforço deve ser recompensado.
Incentivar e elogiar é nosso dever como pessoas que amam o seu próximo(como a nós mesmos).

De: Ange
Outubro/2009

Gostei das considerações, fez pensar...
É mais fácil reclamar de um serviço mal feito do que elogiar um bom atendimento. Acho que nem sempre reconheço não... as vezes estou muito preocupada comigo para enxergar além ... infelizmente.

De: Elemer
Outubro/2009

Everton, o mundo ainda precisa muito de você.
Valeu pela reflexão.
Por isso quando vou a uma pizzaria ou restaurante, as pessoas que mais recebem minha atenção, são os garçãos.
Imagino eu num sábado à noite numa pizzaria, numa boa, e o cara trabalhando. Ou num almoço de domingo num restaurante, almoçando com a família, e o cara lá, trabalhando.
Aquele senhor que cuida dos carros ali na pizzaria casarão, sempre leva uns trocados meus. É instinto, nem sei porque.
Valeu, um abraço.



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