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Igual ao diferente

Everton Spolaor - 01/10/2007

Você não acha paradoxal o fato de que as pessoas são tão diferentes mas ao mesmo tempo tão semelhantes?

Ao longo dos anos, o caminho de nossas vidas vai cruzando com centenas ou milhares de outras vidas, e vamos percebendo que cada um tem algo de novo, de inesperado, de interessante. A voz, o jeito de olhar, a maneira como se movimenta; cada criatura tem suas particularidades. Cada um leva consigo suas - e somente suas - idéias, crenças, julgamentos, angústias, alegrias e considerações.


Cada indivíduo deste mundo é uma espetacular criação da natureza, e por mais que procuremos pelo universo adentro, jamais encontraremos duas pessoas exatamente iguais. Mas conforme ampliamos nossos relacionamentos começamos a nos dar conta do quão semelhantes as pessoas são, de quão semelhantes são seus sonhos, suas crenças, suas práticas, suas idéias.

Pelo menos uma vez por semana eu costumo pedalar à noite na estrada que leva ao topo do morro das antenas. Subir lá à noite é muito legal, mas subir sozinho é muito mais interessante. Você começa a ouvir tudo quanto é barulho esquisito no meio do mato... cré cré cré... zuuuiiiimmm zuuuiiimmm, ururuuuuu ururuuuuu... dá mó medão... Normalmente o morro fica encoberto por uma neblina fria e intensa, mas na última subida a noite estava um espetáculo. Com nenhuma nuvem no céu era possível ver as luzes lá na beira do mar. Acima da minha cabeça havia uma penca enorme de estrelas. E lá embaixo havia uma imensidão de luzinhas, que pareciam ser um reflexo do céu.

Passei a imaginar o que estaria acontecendo lá embaixo, em cada uma daquelas luzinhas: Logo ali, à esquerda, uma moça pressionava bloquinhos de plástico com as pontas dos dedos enquanto seus olhos não paravam de percorrer o espaço de uma tela de vidro luminoso e sua mente se enchia de mensagens produzidas por outras pessoas, que também estavam pressionando bloquinhos de plástico em algum local longe dela. Mais ali, um pouco à direita, uma família inteira permanecia sentada em um sofá, fazendo apenas um ou outro movimento, e todos estavam voltados em direção a uma tela luminosa que mudava constantemente suas cores. Mais adiante, um casal discutia porque o marido só queria saber de trabalhar, e não dava atenção à esposa. Um pouco mais acolá, duas pessoas brigavam por causa de uma barbeiragem de trânsito. E um pouco mais ali, colegas trocavam conversas em uma festinha do trabalho, e todos se esforçavam para contar os defeitos de alguém que não estava ali com eles, ou faziam piadas sobre aquela pessoa, na tentativa de se sentirem superiores. E por todo lado era a mesma coisa. As pessoas sempre fazendo as mesmas coisas, pensando as mesmas coisas, discutindo por bobagens que não servem para nada ou deixando o tempo rolar à toa.

Se fizermos uma retrospectiva de todas as pessoas que conhecemos, veremos que há pessoas muito legais, com as quais é muito legal conviver e que, como disse no início do texto, cada uma delas tem sua marca registrada. Mas veremos também que na maioria das vezes as pessoas fazem as mesmas coisas, cometem os mesmos erros e ao invés de imitarem as coisas boas uns dos outros, preferem imitar as coisas ruins. De onde vem essa mania de imitar uns aos outros?

Louco! Quem não é igual a todo mundo é louco. Você sobe o morro à noite? Então é louco! Você estuda Feng Shui? Então é louco! Você come repolho roxo com sorvete? Então é louco! Você é depravado pra transar? Então é louco! Você colocou um piercing na testa? Então é louco!

Pois louco é quem restringe sua vida ao óbvio, ao que é moda, ao que é comum, e não se dá o direito de viver nada surpreendente.

Dizem que os astronautas ficam completamente transformados quando voltam de sua primeira jornada no espaço. Deve ser porque olhando o mundo lá de cima eles talvez percebam o quanto perdemos tempo com besteiras e coisas que nada significam. Mas não precisamos ir até as estrelas para acordar dessa mesmice que domina as sociedades. Basta deixarmos de ser marionetes e atores, e exercermos o direito de sermos nós mesmos.

Everton Spolaor


Comentários dos visitantes:

From: "Elce" [elce.mara@hotmail.com]
Date: Tue, August 12, 2008 4:23 pm

Muitas vezes vc vive os padroes que lhe foram imposto por toda sua vida.E nem se da conta que no fim vc não passa de uma massinha de modelar.Que a sociedade,pais,amigos,enfim,os outros te transformaram naquilo que eles acham "correto".
Fazer o que os outros querem e não o que você realmente deseja é uma falta de respeito consigo mesmo.Uma forma de tortura.Estou aprendendo a me permitir!


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