Até mesmo a preparação do solo, que antes era feita por cinco pessoas, hoje é feita por tratores robotizados. No dia da preparação um trator se move sozinho pelo terreno, orientado por um sistema GPS. Todo trabalho é feito sem a necessidade de um motorista. De fato, com o atual nível de automação na fazenda, apenas cinco funcionários já dariam conta de todo serviço. Mas Carlos não demitiu 15 pessoas. Ele preferiu continuar com as 20, que ajudaram a construir a fazenda ao longo dos anos. Ao invés de demitir 15 pessoas, ele manteve as 20 e reduziu bastante a jornada de trabalho. A única exigência que Carlos fez foi que seus funcionários deveriam utilizar seu tempo livre de forma louvável, com estudos, artes etc.
No ano 2010 a fazenda estará 100% automatizada, e não será necessário mais nenhum trabalhador para manter a rotina diária. Todas as tarefas serão feitas por robôs e robosas. Mesmo assim, Carlos pretende manter o salário das 20 pessoas que ajudaram a construir a fazenda, mesmo sabendo que elas não vão trabalhar um minuto sequer.
Talvez você ache que Carlos tomou uma decisão errada. Talvez você esteja pensando que ele deveria ter demitido todo mundo, pois assim teria mais lucro. Mas Carlos pensa de outra forma.
Por que devemos trabalhar, se temos capacidade de construir máquinas que trabalhem por nós? O mundo não seria um lugar melhor de se viver se tivéssemos mais tempo para fazer o que gostamos de fazer, ao invés de passar o dia inteiro trabalhando? Sim, seria muito melhor, certamente. E um mundo assim seria possível, se as pessoas não fossem tão gananciosas.
Se o dono de um supermercado tiver a opção de substituir seus 200 funcionários por 200 chips eletrônicos, com certeza ele fará isso. Demitirá os 200 funcionários, e assim não precisará pagar 200 salários. Mas se não houvesse essa ganância desenfreada, ele poderia muito bem substituir os funcionários por máquinas e continuar dando o salário às pessoas. Imagine um mundo inteiro em que não é necessário trabalhar todos os dias, porque há máquinas que fazem isso por nós. Será que um mundo assim funcionaria? Talvez sim, talvez não. Há outras questões a se ponderar. No caso da fazenda, talvez algum dos funcionários sentisse vontade de ganhar mais dinheiro, e assim teria que trabalhar em outro lugar, visto que na fazenda só existia um salário igual para todos. O mesmo aconteceria em um mundo robotizado. Que critério seria utilizado para a divisão da riqueza?
Hoje, ganha mais quem consegue explorar melhor seus potenciais. Se nós vivêssemos em um mundo onde o trabalho fosse feito por máquinas, teríamos que definir um critério para dividir a grana. Talvez ganhasse mais quem estudasse mais (xi, neste caso eu seria pobre pacas!). Ou talvez ganhasse mais quem tivesse alguma habilidade artística, como saber cantar ou tocar violão (xi... nesse caso eu estaria ferrado!). Ou, quem sabe, ganharia mais quem fosse mais bonito (xi, nesse caso eu ia ter que pedir esmola no sinal de trânsito).
É difícil imaginar como seria, mas me parece perfeitamente possível existir um mundo assim, no qual as pessoas tivessem tempo pra ficar com a família, pra jogar conversa fora e pra fazer coisas mais humanas e menos automatizadas. Mas pra isso acontecer, teríamos que explodir o atual planeta com algumas bombas de hidrogênio e esperar tudo esfriar, para depois começar tudo de novo, só que dessa vez de forma organizada, sem o consumismo desenfreado, sem governantes malditos, sem motoristas de táxi e sem o SAP.
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