Se você perguntar para alguém o que deve fazer para acabar com o tal do vazio, a resposta irá depender das crenças dessa pessoa:
Uma pessoa religiosa diria que esta sensação é a falta de Deus, de Jesus, de Alá, de Buda, e diria também que o desconforto desapareceria se você frequentasse a igreja ou templo.
Um aventureiro diria que esta sensação é a falta de aventuras na sua vida, e que ela desapareceria se você viajasse, se fosse voar de parapente e descer as corredeiras do Himalaia com um caiaque.
Um frequentador de festas noturnas diria que esta sensação é a falta de farra, e que ela desapareceria se você começasse a frequentar as casas noturnas todo fim de semana.
Um bêbado diria que esta sensação é a falta de álcool, e que ela desapareceria se você tomasse uns porres.
Um viciado em trabalho diria que esta sensação é a falta de ocupação, e que ela desapareceria se você trabalhasse da manhã à noite, de segunda a segunda.
Em verdade, porém, eu vos digo que nenhuma destas opções é capaz de resolver o problema da sensação de vazio. O caminho a ser tomado deve ser outro.
Imagine a seguinte situação:
Você estava sentindo o tal do vazio, e decidiu frequentar uma igreja. Quando você está na igreja, sente que tudo está bem, e que a sensação de vazio desapareceu. Mas basta passar alguns dias sem ir à igreja, ou sem fazer suas orações, que o tal do vazio volta a te atormentar. Se pensarmos bem, neste caso a pessoa não está atacando a causa da sensação do vazio. Ela está apenas ocupando sua mente toda vez que a sensação aparece.
Quando a tristeza aflora na mente, a pessoa corre para o templo ou igreja. É como se a religião fosse uma espécie de aspirina para curar sua aflição existencial. Oras! Você vai querer passar a vida toda tomando aspirina? Não é melhor descobrir a fonte da sensação de vazio?
Não é sensato levar uma vida onde a é preciso estar sempre ocupado ou com a mente distraída para se sentir bem.
A verdadeira fonte da sensação de vazio.
O tal do vazio não é a falta de religião, nem de aventuras, sexo ou drogas. Nada disso. Ela nada mais é que a falta de você mesmo. A única forma de preencher um vazio existencial é enchendo-se de si mesmo, vivendo para si mesmo.
Mas o que exatamente significa "viver para si mesmo"?
Para você entender o que é viver para si mesmo, vou pedir que faças um pequeno esforço de imaginação. Por favor, faça o seguinte, em sua mente:
Remova de sua vida, imaginariamente, tudo o que você faz para ganhar dinheiro e que não lhe seja absolutamente agradável e prazeroso
(por exemplo, trabalhar sob as ordens de alguém, ter que bajular pessoas para conseguir favores, estudar algo apenas para tentar ganhar uma promoção etc.). Pois isso é viver para os outros, não para si mesmo. Imagine, então, sua vida sem todas essas atividades.
Remova também tudo o que você faz para não ser mal visto pelas outras pessoas (dizer algo
quando em verdade queria dizer outra coisa, elogiar alguém quando em verdade queria xingá-la, frequentar um local contra sua vontade, usar um tipo de roupa só para aparentar algo que em verdade não és etc.). Pois isso também é viver para os outros.
Remova de sua mente todas as ideias que não são verdadeiramente suas, mas que foram colocadas
na sua mente por outras pessoas, como seus pais, a escola, religião etc.
Remova, por fim, tudo o que você faz com o intuito único de se distrair (ver televisão, ouvir
músicas, ir em festas etc.). Pois distrações são meios de você não estar consigo mesmo.
Imagine agora tudo o que sobrou depois que tirastes todas estas coisas de sua vida. Pois justamente o que sobrar, isto é a tua verdadeira natureza, este é seu verdadeiro eu. Tudo o que você fizer que esteja em sintonia com seu verdadeiro eu poderá ser considerado como vida
verdadeira. Tudo o que não estiver em sintonia com seu verdadeiro eu, não é vida. É apenas
distração, é apenas existência, não vida.
Por exemplo, há pessoas que nasceram com uma forte inclinação para as artes. Uma pessoa assim
sente vontade de pintar quadros, de esculpir, de trabalhar cores e formas, sente que estudar
as expressões da natureza é o que a identifica como ser humano. Se esta pessoa abrir mão de
sua verdadeira natureza e for trabalhar como advogado, médico ou qualquer outra coisa, estará
deixando de viver. Seus momentos de vida verdadeira se reduzirão a um ou outro momento de
compensação.
Sêneca, um pensador grego que viveu há cerca de dois mil anos, certa vez disse:
"Não temos exatamente uma vida curta, mas deperdiçamos uma grande parte dela. A vida se bem
empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de
importantes tarefas. Ao contrário, se desperdiçada no luxo e na indiferença, se nenhuma obra
é concretizada, por fim, se não se respeita nenhum valor, não realizamos aquilo que
deveríamos realizar, sentimos que ela realmente se esvai."
Veja, a nossa sociedade está estruturada de uma forma tal que todos os dias precisamos fingir ser algo que não somos. Por exemplo, há momentos em que você quer xingar alguém que foi grosseiro com você, mas não pode fazer isso porque você foi educado para ser bonzinho. Você desde pequeno age e se comporta conforme aquilo que seus pais lhe ensinaram, conforme o que as religiões ensinaram, conforme a escola ensinou. Ora, educação é, antes de qualquer outra coisa, condicionamento mental. Fizeram você memorizar um monte de regras e procedimentos que você deve seguir para ser um bom cidadão, ignorando o fato de que somos indivíduos, de que cada um de nós tem suas próprias ambições, seus próprios sonhos. O homem não foi criado para ser ovelha, nem para ser um robozinho que só faz aquilo que os outros disseram para fazer. A vida não deve ser levada como uma série de procedimentos, que em verdade se transformam em uma série de limitações. Busque ser você mesmo.
Ampliação da inteligência
Um sábio se basta a si mesmo. Quem não tem a si mesmo vive em uma constante solidão, e por isso busca a todo instante estar cercado de muitas pessoas, mesmo que sejam pessoas estranhas e cujas conversações sejam fúteis e vazias de significado. A vida seria muito mais vida se pudéssemos ter a companhia de pessoas mais cultivadas, mais sábias. Todo mundo já ouviu dizer que a felicidade não é o final do caminho; ela é o próprio caminho. Assim sendo, uma forma de trilhar este caminho é a busca do desenvolvimento da verdadeira inteligência. Em meu livro "Inteligência: caminhos para a plenitude" faço uma objetiva demonstração das técnicas para desenvolver uma mente mais livre, mais criativa e mais dona de si. Clique aqui para conhecer meu livro.
Finalizando, sou da opinião de que se Deus quisesse que fôssemos meros seguidores de religiões, de idealismos alheios, de modismos e práticas similares, ele nos teria dado um cérebro do tamanho de uma beterraba, e isso já nos seria suficiente. Mas não, nós não temos um cérebro mixuruca. Viemos ao mundo como seres pensantes, livres. Não se escravize seguindo o que os outros querem que você siga e sendo o que os outros querem que você seja. Seja você mesmo. Quem tem uma vida preenchida por seu verdadeiro eu jamais saberá o que é ser vazio.
Espero que este texto lhe seja útil. Grande abraço!
Everton Spolaor