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Everton Spolaor
Sou um simples mortal que cultiva o constante aprimoramento do intelecto e que se esforça para tornar este mundo um pouco melhor. Seja bem vindo ao meu website.
Fontes de Inspiração:
Emerson, Einstein, Krishnamurti, Charles Darwin, Thoreau

A brevidade da vida
Será que a vida é curta demais?
por Everton Spolaor - janeiro de 2012

Existem ocasiões, especialmente quando tomo conhecimento da morte de algum conhecido, em que tenho a nítida sensação de que a vida é curta demais.
De fato, se possível me fosse, queria poder viver por mais de mil anos. Uma vida de 80, 90 ou até de 100 anos me parece uma ínfima fração de existência perdida na imensidão do fluxo do tempo.

Mas será que a vida é, de fato, um lampejo insignificante perdido no infinito horizonte do tempo? Ou será que em verdade ela é suficientemente longa mas que por alguma espécie de confusão mental acabamos tendo a sensação de que nossa vida é curta?

Esta pequena insatisfação me foi motivo suficiente para fazer-me despender algum tempo refletindo sobre estas coisas a fim de buscar uma explicação para a sensação de brevidade da vida.

Vejamos se valeu a pena tal esforço de pensamento.




O que será que pensaríamos se ao invés de vivermos até os 100 anos de idade pudéssemos viver até os mil anos?

Imaginei-me então com 500 anos de idade e com expectativa de viver até os 1000. Neste caso, se refletisse sobre meu passado, será que eu teria a sensação de que muito tempo já haveria passado, ou será que novamente teria aquela sensação de "Pelas barbas do tubarão! O tempo voa, já estou com 500 anos!"? E se neste cenário eu imaginasse meu futuro, será que ficaria contente por saber que teria pela frente ainda meio século de existência, ou uma angústia dominaria minha consciência, fazendo-me lamentar por saber que metade da minha vida já teria sido consumida?

Ora, pensando sobre isso cheguei à convicção de que o problema não é exatamente o tempo em si. A vida não é sinônimo de tempo, mas do quanto vivemos de fato para nós mesmos. Se uma pessoa tem idade avançada, isso não significa que ela viveu muito. Significa apenas que ela existiu por muito tempo. O quanto ela verdadeiramente viveu irá depender de quanto tempo ela dedicou a si mesma.

Há pessoas que acreditam que a vida é curta demais. Para outras, a vida tem um tamanho suficiente. E há quem diga que a vida é demasiadamente longa.

Tal observação reforça a convicção de que o tamanho da vida de alguém não se mede pelo tempo em que este alguém existe no mundo, pois se assim o fosse todas as pessoas teriam a mesma opinião sobre o tamanho de suas vidas. A medida de nossas vidas não se dá pelo tempo de existência, mas pela soma dos momentos em que vivemos para nós mesmos.

Mas o que, afinal de contas, significa "viver para si mesmo"?

Para você entender o que é viver para si mesmo, vou pedir que faças um pequeno esforço de imaginação. Por favor, faça o seguinte, em sua mente:

Remova de sua vida, imaginariamente, tudo o que você faz para ganhar dinheiro e que não lhe seja absolutamente agradável e prazeroso de tal forma que o dinheiro chega a ser menos importante que a própria satisfação do trabalho que fazes (por exemplo, remova de sua vida a prática de trabalhar como empregado executando tarefas, trabalhar sob as ordens de alguém, ter que bajular pessoas para conseguir favores, estudar algo apenas para tentar ganhar uma promoção etc.). Pois isso é viver para os outros, não para si mesmo. Imagine, então, sua vida sem todas essas atividades.

Remova também tudo o que você faz para não ser mal visto pelas outras pessoas (dizer algo quando em verdade queria dizer outra coisa, elogiar alguém quando em verdade queria xingá-la, frequentar um local contra sua vontade, usar um tipo de roupa só para aparentar algo que em verdade não és etc.). Pois isso também é viver para os outros.

Remova de sua mente todas as ideias e crenças que não são verdadeiramente suas, mas que foram colocadas na sua mente por outras pessoas, pelos seus pais, pela escola, pela religião etc.

Remova, por fim, tudo o que você faz com o intuito único de se distrair (ver televisão, ouvir músicas, ir em festas etc.). Pois distrações são meios de você não estar consigo mesmo. Distrações são coisas boas e necessárias, mas quando em exagero são capazes de sufocar uma personalidade.

Imagine agora tudo o que sobrou depois que tirastes todas estas coisas de tua vida. Pois justamente o que sobrar, isto é a tua verdadeira natureza, este é teu verdadeiro eu. Tudo o que você fizer que esteja em sintonia com seu verdadeiro eu poderá ser considerado como vida verdadeira. Tudo o que não estiver em sintonia com seu verdadeiro eu, não é vida. É apenas distração, é apenas existência, não vida.

Por exemplo, há pessoas que nasceram com uma forte inclinação para as artes. Uma pessoa assim sente vontade de pintar quadros, de esculpir, de trabalhar cores e formas, sente que estudar as expressões da natureza é o que a identifica como ser humano. Se esta pessoa abrir mão de sua verdadeira natureza e for trabalhar como advogado, médico ou qualquer outra coisa, estará deixando de viver. Seus momentos de vida verdadeira se reduzirão a um ou outro momento de compensação.

De fato, Krishnamurti já dizia que para viver é preciso meio que morrer.

Vejam, é fácil notar que para uma criança o tempo parece se arrastar tal como doce de leite escorrendo pelas fímbrias de um pão quente, enquanto que na vida adulta a impressão que temos é a de que alguém lá em cima afundou o pé no acelerador temporal. Mas o que será que fizemos de tão terrível entre a infância e a idade adulta, que acabou por acelerar nossa sensação de fluxo do tempo?

Alguma coisa muito errada deve ter ocorrido neste intervalo. E o erro foi deixarmos de ser nós mesmos. Quando você era criança, não parecia uma eternidade a semana que antecedia o Natal, tamanha era a expectativa de chegada dos presentes? E uma simples caminhada com a família, para ir de casa até a beira do mar, não parecia uma longínqua jornada?

Um antigo pensador certa vez disse:

“Não temos exatamente uma vida curta, mas deperdiçamos uma grande parte dela. A vida se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas. Ao contrário, se desperdiçada no luxo e na indiferença, se nenhuma obra é concretizada, por fim, se não se respeita nenhum valor, não realizamos aquilo que deveríamos realizar, sentimos que ela realmente se esvai.”

Perscruta a tua memória: quando atingiste um objetivo? Quantas vezes o dia transcorreu conforme o planejado? Quando usaste seu tempo contigo mesmo? Quanto mantiveste uma boa aparência, o espírito tranquilo? Quantas obras fizeste para ti com um tempo tão longo?

Quantos não esbanjaram a tua vida sem que notasses o que estavas perdendo? O quanto de tua existência não foi retirado pelos sofrimentos sem necessidade, tolos contentamentos, paixões ávidas, conversas inúteis, e quão pouco te restou do que era teu? Compreenderás que morres cedo.

A expectativa é o maior impedimento para viver: leva-nos para o amanhã e faz com que se perca o presente.

Note que até mesmo na hora de almoçar as pessoas não vivem o presente. Sentada à mesa, ela ingere alimentos, mas nunca presta atenção no momento. Sua mente está pensando em algo que fez ou em algo que precisa fazer. Seu corpo está se alimentando, mas sua mente permanece vazia de si mesmo. Viver é estar presente no presente. Então preste mais atenção em você mesmo. Esteja mais presente na vida.

Bem, depois de refletir sobre esta questão toda, e considerando que o homem é um ser cuja natureza o incita a constantemente descobrir o novo, a querer sempre mais, a desejar evoluir, cheguei à indelével conclusão de que a vida é curta mesmo. Não pelo tempo, mas pelo simples fato de que, dada sua natureza humana, ninguém pode chegar ao fim da vida e sentir que tudo o que viu já está de bom tamanho. Queremos sempre ver mais, experimentar mais, viver mais. No entanto, ao chegarmos ao final da vida, quem viveu para si mesmo pode ser comparado a um homem que comprou um ticket para divertir-se em uma montanha russa e dela aproveitou cada instante, cada loop, cada impulso contra a gravidade, enquanto que o que viveu para os outros é como aquele que cerrou os olhos e só os abriu quando o trem parou, perdendo assim toda a diversão, simplesmente por ter medo de viver ou porque estava esperando o trem chegar ao fim da viagem.

Sêneca certa vez disse: “Muito breve e agitada é a vida daqueles que negligenciam o presente e temem o futuro. Quando chegam ao fim, os coitados entendem, muito tarde, que estiveram ocupados fazendo nada.”

Já Érico Veríssimo dizia que “Felicidade é a certeza de que a vida não está passando inutilmente”

Pense você também sobre estas coisas e avalie o quanto você vive para si.
Quem leva uma vida com prudência e sabedoria não corre o risco de chegar ao fim da vida e se identificar com "Epitáfio", dos Titãs:

Devia ter amado mais
Ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais
E até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer
Queria ter aceitado as pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos
Com problemas pequenos
Ter morrido de amor
Queria ter aceitado a vida como ela é
A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr

Espero que este texto lhe seja útil. Grande abraço!

Everton Spolaor


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