O que será que pensaríamos se ao invés de vivermos até os 100 anos de idade pudéssemos viver
até os mil anos?
Imaginei-me então com 500 anos de idade e com expectativa de viver até os 1000. Neste
caso, se refletisse sobre meu passado, será que eu teria a sensação de que muito tempo já haveria passado,
ou será que novamente teria aquela sensação de "Pelas barbas do tubarão! O tempo voa, já estou com 500 anos!"?
E se neste cenário eu imaginasse meu futuro, será que ficaria contente por saber que teria pela
frente ainda meio século de existência, ou uma angústia dominaria minha consciência, fazendo-me lamentar
por saber que metade da minha vida já teria sido consumida?
Ora, pensando sobre isso cheguei à convicção de que o problema não é exatamente o tempo em
si. A vida não é sinônimo de tempo, mas do quanto vivemos de fato para nós mesmos. Se uma
pessoa tem idade avançada, isso não significa que ela viveu muito. Significa apenas que ela
existiu por muito tempo. O quanto ela verdadeiramente viveu irá depender de quanto tempo
ela dedicou a si mesma.
Há pessoas que acreditam que a vida é curta demais. Para outras, a vida tem um tamanho
suficiente. E há quem diga que a vida é demasiadamente longa.
Tal observação reforça a convicção de que o tamanho da vida de alguém não se mede pelo
tempo em que este alguém existe no mundo, pois se assim o fosse todas as pessoas teriam a mesma
opinião sobre o tamanho de suas vidas. A medida de nossas vidas não se dá pelo
tempo de existência, mas pela soma dos momentos em que vivemos para nós mesmos.
Mas o que, afinal de contas, significa "viver para si mesmo"?
Para você entender o que é viver para si mesmo, vou pedir que faças um pequeno esforço de imaginação.
Por favor, faça o seguinte, em sua mente:
Remova de sua vida, imaginariamente, tudo o que você faz para ganhar dinheiro e que não lhe seja
absolutamente agradável e prazeroso de tal forma que o dinheiro chega a ser menos importante
que a própria satisfação do trabalho que fazes (por exemplo, remova de sua vida a prática de
trabalhar como empregado executando tarefas, trabalhar sob as ordens de alguém,
ter que bajular pessoas para conseguir favores, estudar algo apenas para tentar ganhar uma promoção etc.).
Pois isso é viver para os outros, não para si mesmo. Imagine, então, sua vida sem todas essas atividades.
Remova também tudo o que você faz para não ser mal visto pelas outras pessoas (dizer algo
quando em verdade queria dizer outra coisa, elogiar alguém quando em verdade queria xingá-la,
frequentar um local contra sua vontade, usar um tipo de roupa só para aparentar algo que em verdade não és etc.).
Pois isso também é viver para os outros.
Remova de sua mente todas as ideias e crenças que não são verdadeiramente suas, mas que foram colocadas
na sua mente por outras pessoas, pelos seus pais, pela escola, pela religião etc.
Remova, por fim, tudo o que você faz com o intuito único de se distrair (ver televisão, ouvir
músicas, ir em festas etc.). Pois distrações são meios de você não estar consigo mesmo. Distrações são coisas
boas e necessárias, mas quando em exagero são capazes de sufocar uma personalidade.
Imagine agora tudo o que sobrou depois que tirastes todas estas coisas de tua vida. Pois justamente o que sobrar,
isto é a tua verdadeira natureza, este é teu verdadeiro eu. Tudo o que você fizer que esteja em sintonia com seu
verdadeiro eu poderá ser considerado como vida
verdadeira. Tudo o que não estiver em sintonia com seu verdadeiro eu, não é vida. É apenas
distração, é apenas existência, não vida.
Por exemplo, há pessoas que nasceram com uma forte inclinação para as artes. Uma pessoa assim
sente vontade de pintar quadros, de esculpir, de trabalhar cores e formas, sente que estudar
as expressões da natureza é o que a identifica como ser humano. Se esta pessoa abrir mão de
sua verdadeira natureza e for trabalhar como advogado, médico ou qualquer outra coisa, estará
deixando de viver. Seus momentos de vida verdadeira se reduzirão a um ou outro momento de
compensação.
De fato, Krishnamurti já dizia que para viver é preciso meio que morrer.
Vejam, é fácil notar que para uma criança o tempo parece se arrastar tal como doce de leite
escorrendo pelas fímbrias de um pão quente, enquanto que na vida adulta a impressão que
temos é a de que alguém lá em cima afundou o pé no acelerador temporal. Mas o que será que
fizemos de tão terrível entre a infância e a idade adulta, que acabou por acelerar nossa sensação
de fluxo do tempo?
Alguma coisa muito errada deve ter ocorrido neste intervalo.
E o erro foi deixarmos de ser nós mesmos.
Quando você era criança, não parecia uma eternidade a semana que antecedia o Natal, tamanha
era a expectativa de chegada dos presentes? E uma simples caminhada com a família, para ir de casa
até a beira do mar, não parecia uma longínqua jornada?
Um antigo pensador certa vez disse:
“Não temos exatamente uma vida curta, mas deperdiçamos uma grande parte dela. A vida se bem
empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de
importantes tarefas. Ao contrário, se desperdiçada no luxo e na indiferença, se nenhuma obra
é concretizada, por fim, se não se respeita nenhum valor, não realizamos aquilo que
deveríamos realizar, sentimos que ela realmente se esvai.”
Perscruta a tua memória: quando atingiste um objetivo? Quantas vezes o dia transcorreu
conforme o planejado? Quando usaste seu tempo contigo mesmo? Quanto mantiveste uma boa
aparência, o espírito tranquilo? Quantas obras fizeste para ti com um tempo tão longo?
Quantos não esbanjaram a tua vida sem que notasses o que estavas perdendo? O quanto de tua
existência não foi retirado pelos sofrimentos sem necessidade, tolos contentamentos, paixões
ávidas, conversas inúteis, e quão pouco te restou do que era teu? Compreenderás que morres
cedo.
A expectativa é o maior impedimento para viver: leva-nos para o amanhã e faz com que se perca
o presente.